Mulher madura grávida, feliz, contemplando a barriga.

Maternidade tardia: por que julgamos a mãe e não a avó que cria?

Ao longo dos meus atendimentos, encontrei muitas avós que eram, na prática, responsáveis por grande parte dos cuidados dos netos. Algumas participavam da rotina diária; outras assumiam responsabilidades que iam muito além de “ajudar”. Nos últimos anos, enquanto observo crescer o debate sobre maternidade tardia, uma contradição começou a me incomodar. Por outro lado quando uma mulher decide ter um filho aos 38, 40 ou 42 anos, aparecem comentários sobre sua idade, sua disposição e até sobre quanto tempo ainda terá de vida.

“Vai parecer avó.”
“Quando seu filho crescer, você já estará velha.”
“E se você morrer antes?”

Mas quando uma mulher de 60 ou 70 anos assume a criação de um neto, raramente vejo a mesma patrulha sobre sua idade. Por quê? As situações não são biologicamente iguais: uma gravidez em idade materna avançada exige cuidados específicos. Ainda assim, minha questão é outra: por que a idade parece se tornar um problema moral quando a mulher escolhe ser mãe, mas pode ser naturalizada quando ela é chamada a cuidar como avó?

As mulheres estão tendo filhos mais tarde

O adiamento da maternidade não é apenas uma impressão das redes sociais. É uma mudança demográfica real. Segundo o IBGE, em 2004 foram registrados 59.857 nascimentos de mães com 40 anos ou mais no Brasil. Em 2024, foram 102.823. No mesmo período, caiu bastante a participação dos nascimentos entre mães mais jovens. Além disso, o movimento é internacional: na OCDE, a idade média da mulher no primeiro parto passou de 26,4 anos em 2000 para 29,5 em 2022.

Existem muitos motivos para isso. O Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde reconhece a tendência de postergar a gestação e cita fatores como educação, carreira profissional, estabilidade financeira, métodos contraceptivos mais eficazes e reprodução assistida.

Não estamos diante de uma “moda”. Mulheres já tiveram filhos em idades mais altas em outras gerações; o que chama atenção hoje é o adiamento planejado da maternidade e, muitas vezes, do primeiro filho. Para muitas, antes dele vêm formação, trabalho, independência financeira e o tempo necessário para decidir.

Maternidade depois dos 35 exige cuidados. Isso é diferente de julgamento.

O Ministério da Saúde considera idade materna avançada a gestação a partir dos 35 anos. Alguns riscos obstétricos e cromossômicos aumentam com a idade, e o acompanhamento pré-concepcional e pré-natal adequado é importante. Negar isso não ajudaria ninguém.

Mas existe uma diferença enorme entre informação médica e julgamento social. Dizer que uma gestação pode exigir acompanhamento especializado é informação. Dizer que uma mulher “vai parecer avó” ou foi “egoísta” por decidir ser mãe depois dos 40 é julgamento sobre como ela deveria organizar a própria vida. O próprio manual do Ministério da Saúde também menciona possíveis aspectos positivos associados à parentalidade mais tardia, como maior estabilidade financeira e emocional, ao mesmo tempo em que reconhece desafios.

Avó cuidando do neto
Imagem: Acervo pessoal Angela Santos

E as avós que criam os netos?

Foi aqui que minha experiência profissional começou a conversar com esse debate. As avós cuidadoras fazem parte da estrutura de muitas famílias brasileiras. Um estudo publicado em 2023 na revista Cogitare Enfermagem entrevistou 392 avós que cuidavam de netos, com média de 67 anos. Entre os participantes, 87,5% eram mulheres. O cuidado foi classificado como intensivo e, em 58,7% dos casos, o principal motivo era o trabalho dos pais das crianças.

Dados analisados pelo Ipea a partir do Censo 2022 também mostram forte presença de pessoas idosas em arranjos familiares intergeracionais. Nos domicílios em que aparece a relação de neto com a pessoa responsável pela casa, 58,1% dos responsáveis tinham 60 anos ou mais. Esses números não significam que todas essas avós substituam os pais, mas confirmam algo que eu já havia observado: mulheres mais velhas participam intensamente da sustentação cotidiana de muitas crianças. E é aí que volto à minha pergunta:

Se uma mulher de 67 anos pode ser reconhecida como alguém capaz de cuidar, acolher, educar e organizar a vida de um neto, por que uma mulher de 42 anos precisa ouvir que não terá energia para criar o próprio filho?

A avó não prova que idade não importa. Ela revela uma incoerência.

Não quero usar as avós para dizer que idade não importa. O envelhecimento traz mudanças e limites, e o próprio estudo chama atenção para o impacto do cuidado intensivo sobre a saúde dos idosos. Meu ponto é outro: quando a avó assume o cuidado, tendemos a enxergar responsabilidade e disponibilidade. Quando uma mulher mais velha escolhe engravidar, muitas vezes sua idade chega antes dessas qualidades.

Talvez nós não estejamos apenas discutindo capacidade para cuidar. Talvez estejamos discutindo a idade que socialmente consideramos “permitida” para uma mulher começar determinadas fases da vida.

O preconceito tem nome: etarismo reprodutivo

Em 2026, um estudo publicado no Journal of Women & Aging utilizou a expressão “etarismo reprodutivo” para analisar o preconceito enfrentado por mulheres que se tornam mães na meia-idade. A pesquisa com mulheres chilenas mostrou que a idade ainda funciona como marcador cultural do que se espera de uma “boa mãe”, misturando saúde, fertilidade e capacidade de cuidar em julgamentos sobre aquela maternidade.

Uma mulher aos 40 pode administrar uma empresa, cuidar de familiares e sustentar uma casa. Mas, ao decidir ter um filho, pode ser tratada como velha demais para saber o que está fazendo.

Mulher grávida caminhando na rua sendo observada
Imagem: Acervo pessoal Angela Santos

Será que incomoda a idade ou incomoda a escolha?

Essa é uma pergunta, não uma resposta que pretendo impor. Às vezes me pergunto se todo comentário sobre maternidade tardia nasce realmente de preocupação. Em alguns casos, tenho a impressão de que existe também um incômodo diante de uma mulher que estudou, trabalhou, conquistou independência ou simplesmente não quis ser mãe antes.

Não posso afirmar que isso seja inveja. Seria simplificar sentimentos que pertencem a outras pessoas. Mas comparação e desconforto podem aparecer quando alguém vê outra mulher construindo uma trajetória diferente da sequência tradicional: casar cedo, ter filhos cedo e só depois pensar em si mesma.

Talvez a autonomia incomode tanto quanto a idade.

“Mas e se ela não viver o suficiente?”

Esse é um dos argumentos que mais me fazem pensar. Sim, quem tem filhos mais tarde estará mais velho quando eles crescerem. Mas desde quando a juventude é garantia de permanência?

Uma mulher pode ser mãe aos 20 e não chegar aos 40. Outra pode ter um filho aos 42 e acompanhá-lo por décadas. A idade permite estimar riscos populacionais; ela não entrega a história individual de ninguém. E, novamente, penso nas avós. Quando uma avó assume um neto aos 65, nós não costumamos perguntar se vale a pena a criança criar vínculo com ela porque um dia ela morrerá. Nós entendemos que aquela presença, enquanto existe, importa.

Por que essa humanidade desaparece tão facilmente quando falamos da mulher que decidiu ser mãe mais tarde?

Talvez a pergunta certa seja outra

Maternidade tardia não precisa ser romantizada. Também não precisa ser demonizada. Há questões médicas reais, questões financeiras, disposição física, rede de apoio e condições emocionais que qualquer pessoa deveria considerar antes de ter um filho, independentemente da idade.

Mas talvez seja hora de retirar do debate aquilo que não ajuda ninguém: a humilhação, a caricatura da “mãe-avó” e a ideia de que existe uma única idade socialmente legítima para uma mulher desejar a maternidade. Nos meus atendimentos, vi avós assumirem responsabilidades enormes pelos netos e nunca consegui olhar para elas apenas pela idade. Eu via mulheres cuidando.

Hoje, quando vejo uma mulher ser atacada porque decidiu ter um filho mais tarde, a pergunta volta:

se reconhecemos a capacidade de cuidado de tantas avós, por que temos tanta dificuldade em reconhecer a autonomia de uma mulher mais velha que escolhe ser mãe?

Talvez o problema nunca tenha sido apenas a idade. Talvez ainda tenhamos dificuldade em aceitar que a vida de uma mulher não precisa obedecer ao calendário que outras pessoas escolheram para ela.

Perguntas frequentes

A partir de que idade uma gravidez é considerada em idade materna avançada?

O Ministério da Saúde utiliza 35 anos ou mais como referência para idade materna avançada. Isso indica necessidade de avaliação e acompanhamento adequados, não que toda gestação após essa idade terá complicações.

Por que as mulheres estão tendo filhos mais tarde?

Não existe uma causa única. Educação, carreira, estabilidade financeira, acesso a contraceptivos, reprodução assistida e mudanças nos projetos de vida aparecem entre os fatores associados ao adiamento da maternidade.

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Referências

IBGE. Estatísticas do Registro Civil 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco.

OECD. Society at a Glance 2024.

BRAGATO, A. G. C. et al. Avós cuidadores de netos: análise do perfil e intensidade dos cuidados. Cogitare Enfermagem, 2023.

YOPO DÍAZ, M. Reproductive ageism: Late fertility and the politics of good mothering in Chile. Journal of Women & Aging, 2026.

IPEA. Nota Técnica com dados do Censo Demográfico 2022 sobre arranjos intergeracionais e pessoas idosas responsáveis pelo domicílio.

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