Duas mulheres conversando tomando vinho

Por que é tão difícil fazer amigos na vida adulta?

Eu converso com muita gente. Conheço pessoas interessantes, gosto de estar com algumas delas, troco ideias, dou risada, compartilho momentos. Mas existe uma diferença enorme, pelo menos para mim, entre gostar de alguém e chamar essa pessoa de amiga.

Eu gosto de muitas pessoas. Mas confiar é outra coisa. Talvez por isso eu tenha poucos amigos. Poucos mesmo.

Quando penso em amizade verdadeira, penso naquela pessoa que eu levaria para dentro da minha casa, com quem sentaria para tomar um vinho, conversar durante horas, contar alguma coisa que não contaria para qualquer um e saber que aquilo permaneceria ali. Com o tempo, fui percebendo que conhecer pessoas não é exatamente difícil. O difícil é construir intimidade. E talvez essa seja uma das razões pelas quais fazer amigos na vida adulta parece tão complicado.

Na infância, a amizade simplesmente acontecia

Quando somos crianças ou adolescentes, boa parte das amizades nasce da convivência. Vamos à escola todos os dias com as mesmas pessoas. Encontramos os amigos no bairro. Depois vêm faculdade, cursos, festas e outros ambientes em que passamos muito tempo juntos. Não é preciso abrir a agenda e marcar uma amizade. A proximidade cria oportunidades.

Na vida adulta, essa estrutura muda. Trabalho, relacionamento, filhos, cuidados com familiares, responsabilidades domésticas, deslocamentos e cansaço começam a disputar o mesmo tempo.

Uma meta-análise sobre redes sociais ao longo da vida encontrou justamente esse movimento: as redes de amizade crescem até o início da vida adulta e depois tendem a diminuir. Mudanças como entrada no trabalho, casamento e parentalidade também modificam nossas redes sociais. Uma pesquisa mais recente sobre amizades ao longo das fases da vida descreve os 30 aos 45 anos como um período especialmente carregado de responsabilidades profissionais, conjugais e familiares, deixando menos espaço para a manutenção das amizades.

Talvez não seja que tenhamos desaprendido completamente a fazer amigos. Talvez a vida tenha simplesmente parado de colocar as mesmas pessoas diante de nós todos os dias.

Pessoas em ambiente de trabalho, representando convivência social e formação de vínculos na vida adulta.
Acervo pessoal Angela Santos

Ter muitos contatos não significa ter muitos amigos

Nunca estivemos tão conectados. Podemos saber onde alguém viajou, o que comeu no almoço, onde trabalha, quando começou um relacionamento e até como decorou a sala de casa sem encontrar essa pessoa há anos. Temos grupos, seguidores, contatos profissionais, conhecidos e pessoas com quem conversamos frequentemente. Mas conexão não é necessariamente intimidade.

A Organização Mundial da Saúde chama atenção para a importância da conexão social e estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo vivencie solidão. A própria OMS ressalta que conexão social envolve não apenas quantidade, mas também a qualidade e a função dos relacionamentos.

Isso explica algo que considero muito importante: É possível conhecer muita gente e ainda ter poucas pessoas em quem realmente confiar. Uma agenda cheia não é necessariamente uma vida afetiva cheia. E silêncio no telefone também não significa necessariamente solidão.

Existem pessoas com poucos amigos profundamente satisfeitas com seus vínculos, enquanto outras mantêm dezenas de contatos e não sabem para quem telefonar quando realmente precisam conversar.

Quando comecei a pensar diferente sobre amizade

Minha mãe nunca foi uma pessoa muito favorável a muitas amizades. Cresci ouvindo que era preciso ter cuidado com as pessoas, não confiar facilmente e observar bem quem entrava na nossa vida. Hoje, às vezes me pergunto quanto dessa cautela ficou em mim.

Não acho que seja possível simplesmente dizer: “Tenho poucos amigos porque minha mãe pensava assim.” Seria uma explicação fácil demais. Também tive minhas próprias experiências, conheci pessoas muito diferentes e construí minhas conclusões ao longo da vida. Mas aquilo que ouvimos dentro de casa também participa da maneira como começamos a interpretar o mundo.

Uma revisão publicada em 2026 sobre o desenvolvimento da confiança mostra que os pais podem influenciar a maneira como os jovens aprendem a confiar tanto pelo que dizem explicitamente quanto pelas mensagens transmitidas através do comportamento. A literatura citada nessa revisão encontrou, por exemplo, associação entre alertas parentais frequentes sobre ser enganado pelos outros e níveis menores de confiança social entre jovens.

Então talvez eu tenha aprendido cedo a observar. E talvez a vida adulta tenha reforçado algumas dessas cautelas.

Amizade ou conveniência?

Essa é uma das questões que mais me fazem pensar atualmente. Às vezes observo vínculos que parecem existir enquanto alguma circunstância os mantém unidos.

As pessoas trabalham juntas, frequentam o mesmo lugar, estão vivendo um problema parecido, uma precisa da outra ou existe algum interesse em comum. Enquanto aquela situação permanece, existe proximidade. Quando a circunstância desaparece, desaparece também aquilo que parecia ser amizade.

Isso me leva a uma pergunta desconfortável: A amizade acabou ou talvez nunca tenha ultrapassado o nível da convivência?

A literatura sobre amizade adulta costuma defini-la como uma relação voluntária, próxima e, sobretudo, recíproca. Confiança, apoio, intimidade e disponibilidade aparecem entre os elementos importantes desses vínculos. Uma revisão sistemática de 38 estudos mostrou que a qualidade da amizade e a convivência com amigos estão associadas ao bem-estar, assim como o esforço dedicado à manutenção das relações.

Então talvez a sensação de conveniência apareça justamente quando percebemos que a reciprocidade não existe. Não significa contar quem telefonou mais vezes ou exigir que cada gesto seja devolvido na mesma proporção. Amizade não é contabilidade. Mas existe uma diferença entre fases em que um amigo precisa mais de nós e relações que só existem enquanto temos alguma utilidade.

Talvez as pessoas estejam mais vazias. Ou talvez eu esteja mais exigente.

Às vezes tenho a impressão de que as relações estão mais superficiais. Pessoas falam muito e escutam pouco. Contam rapidamente detalhes íntimos, mas não necessariamente constroem confiança. Aproximam-se com facilidade e desaparecem com a mesma facilidade. E confesso que algumas vezes penso: as pessoas estão vazias.

Mas gosto de questionar até aquilo que eu mesma penso. Será que as pessoas realmente estão mais vazias? Ou será que, com o passar dos anos, eu passei a exigir mais daquilo que chamo de amizade?

Talvez quando somos mais jovens a proximidade seja suficiente. Depois, começamos a procurar outras coisas: reciprocidade, lealdade, respeito, discrição, presença, a possibilidade de discordar sem destruir a relação e, principalmente, confiança.

Talvez a nossa lista de conhecidos não tenha diminuído tanto. Talvez tenha diminuído o número de pessoas que passam pelo filtro da intimidade.

Confiança não acontece de uma hora para outra

Esse talvez seja o ponto central para mim. Para existir amizade verdadeira, é preciso aceitar algum grau de vulnerabilidade. Confiar significa revelar alguma coisa nossa sem ter garantia absoluta do que o outro fará com aquilo.

Pedir ajuda, contar um medo, mostrar uma fragilidade e dividir alguma parte da vida que não mostramos publicamente.

Uma pesquisa sobre a formação de amizades baseadas em confiança descreve justamente esse processo como gradual: avaliamos se a pessoa parece confiável e, em algum momento, precisamos assumir o risco de nos mostrar vulneráveis para que a confiança possa crescer.

Talvez seja por isso que eu demore para considerar alguém amigo. Conversar é fácil. Confiar exige tempo.

“É alguém que eu levaria para dentro da minha casa?”

Essa é uma medida muito particular minha. Para mim, existe uma diferença simbólica entre conhecer alguém fora e permitir que essa pessoa entre na minha casa e na minha intimidade. Não estou falando apenas da porta física. Estou falando daquela pessoa com quem eu posso sentar tranquilamente, tomar um vinho, conversar sem medir cada frase e saber que não preciso representar nada.

Curiosamente, uma pesquisa publicada em 2026 estudou justamente a relação entre os lugares onde amigos convivem e a proximidade entre eles. Interações em espaços pessoais, como a própria casa, apareceram associadas a maior proximidade e conhecimento recíproco entre amigos.

Talvez por isso essa imagem seja tão significativa para mim. Casa é intimidade. Nem todo conhecido precisa chegar até lá.

Pessoa sozinha em momento de reflexão, representando introspecção e dificuldade de confiar.
Acervo pessoal Angela Santos

Ter poucos amigos não significa não gostar de pessoas

Durante muito tempo, pareceu existir uma expectativa de que uma pessoa sociável deveria ter muitos amigos. Eu não penso assim. Posso gostar de conversar, conhecer muita gente, admirar algumas pessoas profundamente e ter carinho por pessoas que não considero minhas amigas íntimas. Uma coisa não anula a outra.

O problema começa quando confundimos quantidade de relações com qualidade de vínculo. A revisão sobre amizade e bem-estar que citei anteriormente mostra justamente que qualidade da amizade é um dos fatores mais consistentemente relacionados ao bem-estar.

Então talvez não seja necessário transformar uma pequena rede de amizades em problema. Poucos vínculos podem ser suficientes quando são bons.

Amizade adulta também precisa ser cuidada

Existe, porém, outra verdade que eu precisei reconhecer enquanto pensava neste texto. Se amizade adulta exige mais esforço, nós também precisamos participar da manutenção dela. Não adianta esperar que vínculos profundos sobrevivam indefinidamente apenas porque um dia foram importantes.

A vida muda. Pessoas mudam de cidade, trocam de emprego, casam, separam, têm filhos, ficam sobrecarregadas e passam por problemas que às vezes nem sabemos.

Amizade adulta pode exigir iniciativa: uma mensagem, um encontro que precisa ser marcado, uma conversa retomada depois de meses. Um esforço que na adolescência talvez nem percebêssemos que fazíamos porque estávamos todos no mesmo lugar.

Isso não significa insistir em relações sem reciprocidade. Significa reconhecer que vínculos importantes também precisam de presença.

Afinal, o que faz alguém ser amigo?

Eu não tenho uma fórmula. Mas sei que, para mim, amizade verdadeira não depende da frequência com que alguém aparece numa fotografia ou numa rede social. Tem mais a ver com aquilo que permanece quando não existe conveniência.

É a pessoa que se alegra quando algo dá certo para você sem transformar sua conquista em competição; que consegue ouvir, respeita seus limites e não utiliza suas fragilidades numa discussão futura. Não precisa concordar com tudo para continuar ao seu lado, não aparece apenas quando necessita de alguma coisa e com ela existe reciprocidade possível, mesmo que cada um demonstre afeto de uma maneira diferente.

Talvez por isso eu tenha poucos amigos. E hoje não considero isso necessariamente uma falta. Talvez seja apenas a forma como aprendi a distinguir convivência de intimidade.

Eu gosto de muitas pessoas. Mas confiar é outra coisa.

Enquanto escrevia este artigo, voltei várias vezes para essa frase. Porque ela resume algo que demorei muito para colocar em palavras. Não precisamos transformar todas as pessoas de quem gostamos em amigos íntimos.

Existem conhecidos queridos, colegas importantes, pessoas que atravessam uma fase da nossa vida e companhias agradáveis. E existem aquelas poucas pessoas diante das quais podemos baixar a guarda.

Talvez fazer amigos na vida adulta seja difícil porque amizade verdadeira nunca foi apenas encontrar pessoas. É encontrar reciprocidade, construir confiança, permanecer quando a conveniência acaba e permitir que alguém nos conheça suficientemente bem para entrar, simbolicamente, na nossa casa.

Talvez eu continue conhecendo muita gente. Mas para chamar alguém de amigo, ainda preciso de tempo. E hoje acho que está tudo bem.

Perguntas frequentes

Por que fazer amigos fica mais difícil na vida adulta?

As oportunidades de convivência espontânea diminuem e responsabilidades como trabalho, relacionamentos, filhos e cuidados familiares ocupam grande parte do tempo. Pesquisas também mostram que as redes de amizade tendem a diminuir ao longo da vida adulta.

É normal ter poucos amigos?

Ter uma rede pequena não significa necessariamente estar sozinho. A qualidade das amizades, o apoio, a confiança e a satisfação com os vínculos são aspectos importantes para o bem-estar e podem ser mais relevantes do que simplesmente acumular contatos.

Qual é a diferença entre conhecido e amigo?

Não existe uma regra universal, mas pesquisas sobre amizade adulta destacam reciprocidade, confiança, intimidade, apoio e investimento na manutenção do vínculo como características importantes das amizades próximas.

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Referências

PEZIRKIANIDIS, Christos et al. Adult friendship and wellbeing: A systematic review with practical implications. Frontiers in Psychology, 2023.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. WHO Commission on Social Connection, 2025.

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CAVANAGH, Caitlin. A developmental psychological perspective on youth trust. Discover Psychology, 2026.

Bringing friendship home: Home interactions as a predictor of closer interpersonal relationships. Journal of Environmental Psychology, 2026.

AUGUSTSSON, Erika et al. Friends and trends: Friendship across life phases and cohorts. Archives of Gerontology and Geriatrics, 2025.

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