mulher com xicara olhando pela janela

O que Pistis Sophia me fez pensar sobre a mulher moderna: força, independência e o desejo de ser cuidada

Existem mulheres que parecem saber resolver tudo. Elas trabalham, administram a casa, cuidam dos filhos, tomam decisões importantes, pagam contas, cuidam de familiares, enfrentam separações, recomeçam carreiras e seguem adiante quando a vida muda completamente de direção.

Algumas ocupam grandes cargos. Outras têm dois empregos. Algumas criam os filhos praticamente sozinhas. Há aquelas que construíram uma empresa, as que voltaram a estudar depois de anos e também as que simplesmente aprenderam, por necessidade, a não esperar que alguém viesse resolver seus problemas. Conheci algumas mulheres assim ao longo da minha vida. E talvez por isso, quando comecei a conhecer melhor Pistis Sophia, não consegui pensar apenas em um antigo texto gnóstico. Pensei nelas.

Não nas mulheres extraordinárias das capas de revista, nem naquela figura quase impossível da “mulher guerreira que dá conta de tudo”. Pensei nas mulheres normais. Mulheres que cansam. Que choram. Às vezes ficam inseguras. Querem dinheiro suficiente para viver com tranquilidade. Que gostam de se arrumar, cuidar dos cabelos, comprar uma roupa bonita, tomar um café em paz. Que desejam independência e, ao mesmo tempo, querem amar e ser amadas. Mulheres fortes que nem sempre escolheram precisar ser tão fortes.

Quem é Pistis Sophia?

Pistis Sophia é o nome pelo qual ficou conhecido um antigo texto de tradição gnóstica preservado em copta. O manuscrito hoje conhecido como Códice Askew provavelmente foi copiado entre os séculos IV e V a partir de textos anteriores em grego. Dentro dessa narrativa aparece a história de Pistis Sophia, ligada simbolicamente a uma trajetória de queda, sofrimento, busca pela Luz, transformação interior e retorno.

Em uma das interpretações apresentadas no material que estudei, Sophia representa também a jornada da alma: ela se afasta de sua região de origem, atravessa o caos e inicia sucessivas metanoias, palavra associada a uma profunda mudança interior, uma transformação da maneira de pensar e de se posicionar diante da própria existência. É importante dizer que o que faço aqui é uma leitura contemporânea e simbólica. Não estou dizendo que um texto antigo descrevia literalmente a mulher do século XXI. Mas os símbolos sobrevivem justamente porque continuam nos fazendo pensar. E a trajetória de Sophia me fez pensar em muitas mulheres.

mesa com livros e um vaso de flor
Imagem: Arquivo pessoal Angela Santos

A mulher que caiu e descobriu que conseguia levantar

Há um momento da vida em que algumas mulheres descobrem uma força que nem sabiam possuir. Não necessariamente porque queriam descobri-la.

Às vezes foi uma separação, uma viuvez, um abandono, uma dificuldade financeira, a chegada de um filho, uma doença na família, uma mudança de cidade ou a perda de um emprego. Ou simplesmente aquele momento em que ela percebe que, se não tomar uma decisão, ninguém tomará por ela.

Então ela faz: resolve, organiza, procura emprego, estuda, cria os filhos, refaz as contas e começa novamente.

E depois de algum tempo todos passam a olhar para aquela mulher como alguém que “dá conta”. O problema é que poucas pessoas perguntam quanto custou aprender a dar conta.

Nem toda mulher forte queria carregar tudo

Tenho certa resistência quando toda mulher que enfrenta dificuldades recebe imediatamente o título de “guerreira”. Existe carinho nessa palavra, eu sei. Mas também existe um perigo. Porque podemos acabar transformando a sobrecarga feminina em virtude.

Uma mulher que trabalha em dois empregos para sustentar os filhos pode ser admirável. Mas seria ainda melhor se ela não precisasse trabalhar até a exaustão para garantir o básico. Uma mãe que cria os filhos praticamente sozinha pode desenvolver uma força imensa. Isso não significa que ela não gostaria de dividir responsabilidades.

Uma mulher capaz de resolver tudo não deveria ser condenada a resolver tudo. Talvez uma das maiores distorções em torno da ideia de mulher forte seja imaginar que força significa não precisar de ninguém. Não significa.

Independência não elimina o desejo de ser amada

Essa talvez seja uma das contradições mais interessantes da mulher contemporânea. Ela pode ter o próprio dinheiro. A própria profissão. A própria casa. Pode dirigir uma empresa, liderar uma equipe, sustentar uma família ou tomar decisões que décadas atrás talvez fossem tomadas por um homem.

E ainda assim querer chegar em casa e encontrar alguém, querer carinho, ajuda, ser abraçada e ouvir: “Deixa que hoje eu resolvo isso.” Isso não diminui sua independência.

A mulher que sabe cuidar de si também pode desejar ser cuidada. Que paga as próprias contas pode gostar de receber flores. A mulher que toma decisões o dia inteiro pode desejar, em alguns momentos, não precisar decidir nada. A mulher que consegue viver sozinha pode não querer viver sozinha. Existe uma enorme diferença entre precisar de alguém para existir e desejar alguém para compartilhar a existência. Talvez seja aí que algumas relações contemporâneas ainda encontrem dificuldade.

A mulher independente provoca admiração e também desconforto

Conheço mulheres muito independentes e observo como elas podem provocar reações completamente diferentes nos homens. Alguns admiram sua inteligência, autonomia, capacidade de decisão e a vida que construíram. Outros parecem se assustar.

Talvez porque durante muito tempo o papel masculino tenha sido associado à ideia de prover, proteger e conduzir. Quando aparece uma mulher que já construiu sua própria segurança, alguns homens podem não saber exatamente qual lugar ocupar. Mas aquela mulher provavelmente não está dizendo: “Não preciso de você.” Ela pode estar dizendo algo bastante diferente: “Não preciso que você me salve. Mas gostaria que caminhasse comigo.”

São coisas completamente diferentes. Ela não procura necessariamente alguém para sustentar sua vida. Procura alguém capaz de fazer parte dela.

E existe também o outro lado: aprender a receber

Mas seria fácil demais colocar toda a dificuldade do lado de fora. Há também mulheres que passaram tantos anos resolvendo tudo que começaram a ter dificuldade para permitir que alguém faça algo por elas. Elas pedem pouca ajuda. Controlam. Antecipam problemas. Preferem fazer sozinhas porque sabem exatamente como fazer.

E quando alguém se aproxima oferecendo cuidado, alguma coisa dentro delas pode desconfiar. Não porque não queiram amor. Talvez porque aprenderam que depender poderia ser perigoso. Depois de determinadas experiências, autossuficiência pode deixar de ser apenas independência e se transformar também em proteção.

Então surge um paradoxo delicado: ela gostaria de ser cuidada, mas pode ter dificuldade para entregar a alguém a possibilidade de cuidar. Não por frieza, falta de feminilidade ou porque “homem nenhum serve”. Às vezes, simplesmente porque baixar a guarda exige confiança. E confiança não se exige: ela se constrói.

Sophia e a transformação interior

Foi justamente nesse ponto que a ideia de metanoia em Pistis Sophia me chamou atenção. Na interpretação apresentada no material que consultei, essas metanoias não significam apenas arrependimento, mas uma transformação progressiva da mente, dos valores e da orientação da própria vida. Talvez algumas mulheres também atravessem suas próprias metanoias.

Primeiro aprendem: “Eu consigo sozinha.” E isso pode ser fundamental. Depois, talvez venha outra descoberta: “Eu não preciso fazer tudo sozinha.”

Parece uma diferença pequena, mas não é. A primeira frase fala de autonomia. A segunda fala de liberdade. Porque verdadeira independência também deveria incluir a liberdade de receber.

mesa com livros, vasos e esculturas
Imagem: Arquivo pessoal Angela Santos

A mulher que trabalha também continua sendo mulher

Existe outro detalhe que considero importante. A ascensão profissional feminina às vezes foi acompanhada por uma ideia estranha de que, para ser respeitada, a mulher precisaria abandonar tudo o que fosse associado ao feminino. Mas por quê? Uma mulher pode ser CEO de uma grande empresa e gostar de maquiagem. Pode sustentar uma casa e adorar perfume. Discutir sobre investimentos pela manhã e escolher um vestido para jantar à noite.

Pode ser intelectual, sensual, maternal, ambiciosa, romântica, prática, espiritual, vaidosa ou tudo isso em proporções diferentes. Uma característica não cancela a outra. Assim como desejar amor não cancela independência. Talvez amadurecer também seja perceber que não precisamos escolher entre ser fortes ou sensíveis. Somos muito mais complexas do que essas divisões.

As mulheres comuns talvez sejam as histórias mais interessantes

Quando penso nas mulheres que encontrei pelo caminho, não penso em super-heroínas. Penso naquela que teve medo e foi mesmo assim. Naquela que precisou começar de novo aos quarenta ou cinquenta anos. Que criou seus filhos enquanto trabalhava. Naquela que conquistou independência depois de um relacionamento difícil. Na profissional competente que chega em casa cansada. Na mulher que cuida de todos e, secretamente, gostaria que alguém perguntasse como ela está.

E penso também naquela que ainda está aprendendo a dizer: “Eu preciso de ajuda.” Talvez exista muita coragem nessa frase. Porque força não é apenas suportar. Às vezes, força também é confiar.

Conclusão: ser capaz de viver sozinha não significa querer caminhar sozinha

Talvez essa tenha sido a reflexão mais bonita que Pistis Sophia despertou em mim. A trajetória de Sophia fala simbolicamente de queda, busca, transformação e retorno. No próprio texto, sua história passa por sofrimento, pedidos de auxílio e uma progressiva saída do caos em direção àquilo que ela reconhece como Luz. E eu penso nas mulheres de hoje. Elas conquistaram espaços que durante muito tempo lhes foram negados.

Trabalham, escolhem, estudam, lideram, sustentam e recomeçam. Mas nenhuma dessas conquistas deveria exigir que deixassem de desejar afeto.

Independência não significa ausência de necessidade emocional. Talvez uma mulher forte não esteja procurando alguém que resolva sua vida. Talvez ela simplesmente esteja procurando alguém diante de quem não precise ser forte o tempo inteiro. E talvez exista uma enorme diferença entre saber sobreviver sozinha e desejar viver sozinha.

Muitas mulheres já descobriram que conseguem sobreviver sozinhas. Agora podem escolher se desejam viver assim ou compartilhar a vida com alguém.

Perguntas frequentes

O que significa Pistis Sophia?

Pistis Sophia é uma figura central de um antigo texto gnóstico conhecido pelo mesmo nome. Sua trajetória envolve queda, sofrimento, busca pela Luz e transformação interior.

O artigo afirma que Pistis Sophia representa literalmente a mulher moderna?

Não. Esta é uma leitura simbólica contemporânea. A narrativa antiga funciona aqui como ponto de partida para refletir sobre experiências femininas atuais.

Uma mulher independente deixa de precisar de apoio emocional?

Não. Autonomia financeira e profissional não elimina necessidades humanas como afeto, parceria, acolhimento e pertencimento.

Pedir ajuda contradiz independência?

Também não. Ser independente significa possuir autonomia para conduzir a própria vida. Receber ajuda por escolha pode fazer parte dessa autonomia.

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Referências

BRANCO, Raul. Pistis Sophia: Os Mistérios de Jesus. Brasília: Editora Teosófica, 2009.

MEAD, G. R. S. Pistis Sophia.

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