Quando a educação é terceirizada: quem está educando nossas crianças?
Há algum tempo venho observando uma mudança que me inquieta: educar uma criança parece ter se tornado uma responsabilidade cada vez mais distribuída entre escola, internet, redes sociais, influenciadores, jogos, séries e tantas outras referências externas. Compartilhar responsabilidades não é necessariamente um problema. Nenhuma criança cresce apenas dentro de casa. Ela faz parte de uma comunidade, frequenta a escola, estabelece vínculos e é influenciada pelo mundo ao seu redor.
O problema começa quando compartilhar a tarefa de educar se transforma em transferi-la. Ao longo da minha experiência profissional no Serviço Social, trabalhando com crianças, adolescentes, jovens e famílias, muitas vezes percebi adultos esperando que outras instituições resolvessem questões que também precisavam ser enfrentadas dentro de casa.
A escola deveria ensinar limites. O profissional deveria corrigir comportamentos. A instituição deveria ensinar respeito. A internet deveria ser segura. A sociedade deveria proteger. Tudo isso tem uma parcela de verdade. Mas onde fica a função da família?
Educação é uma responsabilidade compartilhada
O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que garantir os direitos de crianças e adolescentes é responsabilidade da família, da comunidade, da sociedade e do poder público. Responsabilidade compartilhada, porém, não significa responsabilidade abandonada. A escola tem uma função fundamental. O Estado também. A assistência social, a saúde, a rede de proteção e a comunidade fazem parte desse processo.
Mas nenhuma dessas instituições consegue substituir integralmente aquilo que é construído na convivência cotidiana. É nas relações mais próximas que uma criança começa a perceber que o outro existe. É ali que encontra os primeiros limites, aprende que suas ações produzem consequências, descobre que nem todos os seus desejos podem ser atendidos imediatamente e começa a compreender que viver em sociedade exige considerar também as necessidades do outro.
Educar não é simplesmente mandar obedecer. Também não é atender a todos os desejos para evitar frustrações. Educar envolve presença. E presença dá trabalho.

Limites não são o oposto do afeto
Talvez uma das grandes confusões do nosso tempo seja associar limite à violência ou ao autoritarismo. São coisas diferentes. Uma criança precisa ser respeitada, ouvida e reconhecida como sujeito. Isso não significa transformá-la na autoridade da casa. Dizer “não” também pode ser uma forma de cuidado.
Ensinar que existem momentos em que os adultos conversam e a criança precisa esperar não é silenciá-la. É ajudá-la a perceber que ela divide o mundo com outras pessoas. Ensinar que não podemos humilhar, bater, expor ou ridicularizar alguém não significa retirar liberdade. Significa introduzir responsabilidade.
Lembro de uma situação que me fez refletir muito sobre isso. Uma pessoa cogitou não convidar determinada família para um evento porque considerava o comportamento da criança muito difícil de lidar. O curioso era que, para a própria família, aquelas atitudes eram vistas como normais e, em alguns momentos, até como algo engraçado ou bonito. Esse episódio ficou na minha memória porque mostra uma consequência sobre a qual pouco se fala.
Aquilo que dentro de casa é tolerado, naturalizado ou até incentivado encontra outros limites quando a criança começa a circular socialmente. Existem outras pessoas, outros ambientes e outras regras de convivência. E, muitas vezes, quem acaba pagando socialmente por essa dificuldade é a própria criança. Ela pode deixar de ser convidada, pode encontrar rejeição ou ter dificuldade de estabelecer vínculos. Não porque seja uma criança “ruim” ou porque tenha nascido “mal-educada”, mas porque talvez os adultos ao seu redor não tenham percebido que educar também significa prepará-la para viver com outras pessoas.
A ausência de limites pode parecer liberdade para o adulto. Para a criança, pode significar chegar ao mundo sem instrumentos suficientes para lidar com os limites que inevitavelmente encontrará.
A criança não cresce sozinha
A psicanálise infantil oferece uma contribuição importante para essa discussão: não é possível pensar uma criança como se ela existisse separada das relações que a constituem. Ao longo da história da psicanálise, diferentes autores discutiram de maneiras distintas o lugar dos pais e da família na vida psíquica da criança. Françoise Dolto e Maud Mannoni, por exemplo, chamaram atenção para a posição parental e para aquilo que circula dentro das relações familiares.
Isso não significa responsabilizar os pais por cada dificuldade apresentada por um filho. Seria uma simplificação injusta. Significa reconhecer que a criança cresce dentro de uma história feita de palavras, expectativas, afetos, conflitos, silêncios e formas de relacionamento.
Quando uma criança apresenta um comportamento difícil, a primeira pergunta costuma ser: “Como faço para ela parar?” Talvez seja necessário acrescentar outras perguntas: o que está acontecendo ao redor dessa criança? Que aprendizado ela está construindo conosco? O que fazemos diante dela que contradiz aquilo que tentamos ensinar? Que lugar estamos ocupando como adultos?
Em muitos casos, olhar apenas para o comportamento da criança é enxergar somente a parte mais visível de uma situação muito maior.
Escutar não é deixar a criança decidir tudo
A aproximação entre psicanálise e educação também traz uma palavra importante para essa discussão: escuta. Escutar uma criança não significa obedecer a uma criança. Escutar um adolescente não significa concordar com tudo o que ele faz. A escuta é reconhecer que existe ali um sujeito que sente, pensa, interpreta e tenta dar sentido ao mundo.
Uma escuta verdadeira permite compreender melhor o que está acontecendo e, justamente por isso, pode ajudar o adulto a exercer sua função de maneira mais consciente. O modelo autoritário das gerações anteriores foi corretamente questionado. Durante muito tempo, crianças foram ensinadas apenas a obedecer, não questionar e permanecer em silêncio diante dos adultos. Superar esse modelo representou um avanço importante. Mas, na tentativa de não repetir o autoritarismo, surgiu em alguns contextos outro problema: adultos com medo de exercer qualquer autoridade.
Não precisamos escolher entre dois extremos. Uma criança pode ter voz sem comandar a família. Pode ter seus sentimentos respeitados e ainda assim ouvir um não. Pode ser acolhida em uma frustração sem que o adulto precise eliminar todas as frustrações de sua vida.
Frustrar uma criança constantemente é violência. Impedir que ela experimente qualquer frustração também pode dificultar seu amadurecimento.
A internet também está educando
Hoje existe outro personagem dentro de praticamente todas as casas: a tela. Celular, tablet, computador e televisão oferecem informação, criatividade, comunicação e inúmeras possibilidades de aprendizagem. Ao mesmo tempo, oferecem conteúdos que crianças e adolescentes nem sempre possuem maturidade emocional para compreender sozinhos.
Existe uma diferença importante entre saber utilizar uma tecnologia e estar preparado para aquilo que se encontra nela. Muitas crianças sabem configurar aplicativos, navegar por plataformas e descobrir recursos que os próprios pais desconhecem. Mas habilidade tecnológica não é maturidade emocional. Uma criança pode dominar perfeitamente um aplicativo e ainda não compreender uma humilhação, uma manipulação, uma exposição ou uma violência que presencia naquele ambiente.
Por isso, acompanhamento não depende de o adulto conhecer todos os botões. Depende de continuar ocupando o lugar de adulto.
O que uma criança assiste também constrói referências
Em minha trajetória profissional, algumas situações me fizeram refletir bastante sobre o impacto dos conteúdos consumidos por crianças. Já presenciei crianças reproduzindo comportamentos e formas de violência que haviam visto em conteúdos audiovisuais. Isso não significa afirmar que assistir a uma série, jogar determinado jogo ou utilizar a internet transforme automaticamente uma criança em alguém violento. O comportamento humano é muito mais complexo do que uma relação simples de causa e efeito.
Mas também considero ingênuo imaginar que aquilo que uma criança vê repetidamente não participe da construção de suas referências. Talvez a pergunta não devesse ser apenas “Meu filho pode assistir?”, mas também “Ele consegue compreender o que está assistindo? E existe um adulto disponível para conversar sobre aquilo?”
Proibir tudo não educa, assim como liberar tudo também não. Educação acontece justamente nesse espaço mais trabalhoso entre essas duas posições.

A escola não consegue fazer isso sozinha
É comum vermos professores sendo responsabilizados por comportamentos que ultrapassam os limites da sala de aula. A escola possui responsabilidade educativa, evidentemente. Mas um professor que recebe dezenas de alunos não pode substituir individualmente a presença familiar de cada um deles. O mesmo vale para psicólogos, assistentes sociais, médicos e outros profissionais.
Podemos acolher, orientar, proteger, intervir e construir possibilidades. Mas existe uma parte da educação que acontece na repetição das pequenas coisas.
Na maneira como os adultos conversam entre si, tratam outras pessoas, lidam com uma frustração, falam de alguém que pensa diferente e agem quando acreditam que a criança não está prestando atenção.
Crianças observam muito antes de compreender teoricamente. Talvez esse seja um dos aspectos mais desconfortáveis da educação: muitas vezes ensinamos mais pelo que fazemos do que pelo que dizemos.
Antes de perguntar o que aconteceu com as crianças
Existe uma preocupação legítima com violência, intolerância, agressividade e dificuldade de convivência entre crianças e adolescentes. Mas atribuir esses fenômenos exclusivamente às novas gerações seria confortável demais. Crianças estão crescendo no mundo construído pelos adultos. Um mundo acelerado, hiperconectado, competitivo e frequentemente agressivo.
Elas observam adultos humilhando pessoas nas redes sociais. Veem discussões transformadas em espetáculo. Percebem que muitas vezes quem grita mais recebe mais atenção.
Por isso, falar sobre educação também exige que os adultos se observem. Não podemos pedir respeito enquanto naturalizamos o desrespeito. Não podemos exigir que crianças controlem seus impulsos se os adultos ao redor transformam qualquer contrariedade em ataque. Educar também é assumir a responsabilidade de olhar para si.
Educação é coletiva, mas a responsabilidade não pode ser anônima
Não acredito em uma volta nostálgica a uma educação rígida, em que crianças não podiam falar, questionar ou demonstrar sentimentos. Também não acredito que a solução esteja em deixá-las descobrir tudo sozinhas. Existe outro caminho. Presença sem autoritarismo. Limite sem violência. Escuta sem abandono da responsabilidade adulta. Autonomia construída progressivamente, e não simplesmente entregue.
Família, escola, comunidade e Estado possuem responsabilidades diferentes e complementares. Quando todos participam, a criança encontra uma rede. Quando cada um acredita que o outro irá educar, surge um vazio.
E vazios também são ocupados: às vezes pela internet, pelos colegas, por influenciadores ou por qualquer pessoa que ofereça uma resposta rápida para aquilo que nenhum adulto teve tempo de conversar.
Conclusão
Talvez a pergunta “quem está educando nossas crianças?” seja desconfortável justamente porque não permite uma resposta simples. Não é apenas a família. Não é apenas a escola. A internet também não é a única responsável. É a combinação dessas relações.
Mas existe uma diferença importante: família, escola, comunidade e sociedade podem assumir conscientemente sua responsabilidade. Um algoritmo não possui compromisso afetivo ou ético com a formação de uma criança.
Diante de tantas transformações, talvez não precisemos de adultos perfeitos. Precisamos de adultos presentes, capazes de escutar e também estabelecer limites, de admitir quando não sabem, de acompanhar sem transformar cuidado em perseguição e, principalmente, de compreender que educar não é uma função que possa simplesmente ser terceirizada.
Uma criança pode aprender muitas coisas sozinha. Mas aprender a viver com o outro é uma construção que acontece nas relações.
Perguntas frequentes
Educar uma criança é responsabilidade apenas da família?
Não. A proteção e o desenvolvimento de crianças e adolescentes envolvem família, escola, comunidade, sociedade e poder público. Essas responsabilidades são complementares, e nenhuma instituição substitui completamente a presença e a convivência familiar.
Estabelecer limites é o mesmo que ser autoritário?
Não. Limites podem ser estabelecidos com respeito, diálogo e sem violência. Eles ajudam a criança a compreender regras de convivência, consequências e a existência das necessidades de outras pessoas.
Escutar uma criança significa deixar que ela decida tudo?
Não. Escutar significa reconhecer sentimentos, pensamentos e necessidades, sem abandonar a responsabilidade adulta de orientar, proteger e tomar decisões adequadas à idade e à situação.
Qual é o papel da internet na educação das crianças?
A internet pode oferecer aprendizado, criatividade e comunicação, mas também apresenta conteúdos que exigem acompanhamento. Saber usar uma tecnologia não significa ter maturidade emocional para compreender tudo o que aparece nela.
A escola consegue compensar sozinha a falta de orientação em casa?
A escola tem uma função educativa essencial, mas não consegue substituir integralmente a convivência familiar. Educação acontece também nas relações cotidianas, nos exemplos dos adultos e na forma como conflitos, limites e responsabilidades são vividos.
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Referências
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA.