Mulher dirigindo sozinha e sorrindo, demonstrando alegria, liberdade e confiança ao volante.

Por que conversamos com objetos? O que o antropomorfismo revela sobre nós

Você já conversou com seu carro, agradeceu a uma planta ou pediu ao computador que colaborasse justamente quando tinha muito trabalho para fazer? Talvez tenha dado nome a algum objeto, comemorado uma conquista diante dele ou sentido dificuldade para se desfazer de algo que já não utiliza.

Eu faço parte desse grupo de pessoas. Converso com meu carro, agradeço, abençoo e compartilho com ele momentos importantes da minha vida. Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma atitude curiosa. Para mim, entretanto, existe uma história muito maior por trás dessas conversas.

Foi justamente essa experiência que me levou a uma pergunta: por que conversamos com objetos e, algumas vezes, nos relacionamos com eles como se fossem pessoas?

Uma das explicações envolve o antropomorfismo, fenômeno estudado pela psicologia que consiste em atribuir características humanas a entidades não humanas. Mas essa definição não explica tudo. Nossos vínculos com objetos também podem envolver memórias, afetos, conquistas e experiências que marcaram profundamente nossa trajetória.

E, em uma época na qual conversamos até com inteligências artificiais, compreender essas relações se tornou ainda mais interessante.

Meu carro e a história que construímos juntos

Quando comecei a dirigir, sentia muito medo. Minha experiência na autoescola foi traumática e, durante algum tempo, assumir o volante representava um desafio enorme. A intensidade desse medo era tão grande que chegava a sentir dores físicas.

Dirigir parecia algo muito mais difícil do que simplesmente aprender a controlar um veículo. Eu precisava lidar com a insegurança, enfrentar situações desconhecidas e descobrir como confiar em mim mesma diante de tantos acontecimentos que não podia controlar.

Meu primeiro carro foi comprado zero-quilômetro e continua comigo até hoje. Ele participou de uma fase muito importante da minha vida, justamente quando eu estava aprendendo a transformar medo em coragem.

Lembro de uma das primeiras vezes em que saí sozinha para trabalhar. Enfrentei uma chuva tão forte que mal conseguia enxergar. Foi uma experiência assustadora para alguém que ainda estava construindo sua confiança ao volante.

Ao longo dos anos, também presenciei acidentes, passei por situações perigosas e precisei enfrentar desafios que, no início, pareciam muito maiores do que minha capacidade de superá-los.

Entretanto, cada experiência foi contribuindo para que eu me tornasse mais segura. Aos poucos, comecei a perceber que conseguia fazer coisas que antes considerava impossíveis.

Meu carro esteve presente durante todo esse processo.

Hoje, quando supero alguma situação difícil, costumo conversar com ele. Agradeço, abençoo e, algumas vezes, comemoro dizendo: “Nós vencemos mais uma”.

Sei perfeitamente que foi minha coragem que me permitiu enfrentar aqueles desafios. Mas aquele carro esteve comigo enquanto eu descobria uma força que não imaginava possuir.

Por isso, ele representa muito mais do que um meio de transporte. Tornou-se parte de uma história de autonomia, aprendizado e superação.

Essa experiência me fez perceber algo interessante. Nem sempre conversamos com um objeto porque acreditamos que ele possa nos compreender. Às vezes, conversamos porque ele representa momentos importantes da nossa própria existência.

O que é antropomorfismo?

A palavra antropomorfismo tem origem no grego. Anthropos significa ser humano, enquanto morphé significa forma. O termo descreve a tendência de atribuir características humanas, como sentimentos, intenções ou comportamentos, a seres e elementos que não são humanos.

Isso acontece quando dizemos que o Sol está sorrindo, que o computador resolveu nos contrariar ou que determinado carro parece ter personalidade própria.

Na maioria dessas situações, não acreditamos literalmente que os objetos possuam pensamentos. Estamos utilizando uma linguagem que aproxima aquilo que observamos das experiências humanas que conhecemos.

Em 2007, os pesquisadores Nicholas Epley, Adam Waytz e John Cacioppo publicaram um estudo na revista Psychological Review, apresentando uma teoria sobre os fatores envolvidos no antropomorfismo.

Segundo os autores, essa tendência pode estar relacionada à maneira como utilizamos nossos conhecimentos sobre o comportamento humano para interpretar o mundo, à necessidade de compreender acontecimentos e à busca por conexão social.

Isso ajuda a explicar por que determinados objetos ou tecnologias parecem adquirir características pessoais aos nossos olhos.

Quando um aparelho apresenta defeitos repetidamente, por exemplo, podemos dizer que ele está nos provocando. Se um veículo responde bem em uma situação difícil, alguém pode comentar que ele foi um verdadeiro companheiro.

Essas expressões revelam como nossa linguagem e nossa imaginação frequentemente utilizam referências humanas para dar sentido às experiências cotidianas.

Entretanto, existe uma distinção importante. O antropomorfismo envolve atribuir características humanas ao que não é humano, enquanto o vínculo afetivo com um objeto pode existir sem essa atribuição.

Uma pessoa pode gostar profundamente de um relógio, uma fotografia ou um carro sem acreditar que esses objetos tenham sentimentos.

Por que alguns objetos se tornam tão especiais?

Nem sempre o valor de um objeto está relacionado ao dinheiro que gastamos para adquiri-lo.

Uma roupa pode representar uma ocasião inesquecível. Um livro pode guardar a lembrança de uma fase importante. Uma chave pode simbolizar a conquista da primeira casa. Já um carro pode representar a liberdade de quem precisou enfrentar muitos medos antes de conseguir dirigir sozinho.

O significado desses objetos surge da relação que construímos com eles ao longo do tempo.

O pesquisador Russell Belk, em seu trabalho Possessions and the Extended Self, publicado em 1988, explorou como nossas posses podem contribuir para a construção e a expressão da identidade.

A ideia do chamado eu estendido ajuda a compreender por que determinadas coisas parecem tão ligadas à nossa história pessoal. Elas podem representar aspectos importantes daquilo que somos, daquilo que fomos ou daquilo que desejamos nos tornar.

Isso não significa que nossa identidade dependa exclusivamente dos bens materiais. Significa reconhecer que alguns objetos participam simbolicamente da narrativa que construímos sobre nós mesmos.

Pense em uma pessoa que guarda a primeira carteira de trabalho, mesmo depois de tantos anos. Para alguém de fora, aquele documento pode não despertar interesse. Para quem o conserva, entretanto, talvez represente o início da independência financeira, os primeiros desafios profissionais e uma fase de grandes transformações.

O mesmo acontece com objetos recebidos de pessoas queridas. Às vezes, aquilo que mantemos guardado não possui grande valor comercial, mas desperta lembranças que dificilmente poderiam ser substituídas.

Talvez seja por isso que algumas despedidas materiais provoquem emoções inesperadas. Não estamos necessariamente sofrendo pela perda de uma coisa. Podemos estar nos despedindo de uma representação importante da nossa história.

O que a psicanálise pode explicar sobre nossa relação com os objetos?

A psicanálise também oferece contribuições importantes para compreender as relações afetivas e simbólicas estabelecidas com os objetos.

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, desenvolveu o conceito de objeto transicional a partir de seus estudos sobre o desenvolvimento infantil.

Um cobertor, uma fralda ou um brinquedo especial pode adquirir grande importância para uma criança. Esses objetos participam de experiências relacionadas à segurança emocional e ao desenvolvimento da capacidade de lidar com a separação e com o mundo externo.

Na teoria de Winnicott, o objeto transicional possui um significado específico. Portanto, seria incorreto afirmar que todo objeto querido por um adulto desempenha automaticamente a mesma função.

Ainda assim, seus estudos ajudam a perceber que a relação entre pessoas e objetos pode envolver experiências subjetivas muito mais complexas do que sua utilidade material.

Outra contribuição para essa discussão está no conceito de projeção, presente na tradição psicanalítica. Em determinadas circunstâncias, podemos atribuir a outros sentimentos, impulsos ou características que pertencem à nossa própria experiência psíquica.

Entretanto, projeção e antropomorfismo não são a mesma coisa.

Dizer que um computador está irritado não significa necessariamente estar utilizando um mecanismo de defesa. Da mesma maneira, agradecer a um carro não comprova que exista algum conflito inconsciente por trás daquele comportamento.

É importante evitar interpretações psicológicas automáticas, principalmente quando estamos diante de atitudes comuns e que não provocam sofrimento.

A psicanálise nos convida a considerar o significado singular das experiências. Um mesmo objeto pode representar segurança para uma pessoa, liberdade para outra e lembranças dolorosas para uma terceira.

Mais importante do que atribuir um significado universal é compreender a história construída por cada indivíduo.

Criança brincando de professora diante de uma lousa, enquanto suas bonecas estão sentadas como alunas, representando a imaginação infantil.
Imagem: Arquivo pessoal Angela Santos

Por que as crianças conversam com brinquedos?

Durante a infância, é bastante comum que brinquedos participem de histórias, diálogos e situações imaginárias.

Bonecas recebem nomes, animais de pelúcia tornam-se personagens e carrinhos podem assumir diferentes papéis nas brincadeiras. A criança cria situações, organiza acontecimentos e explora experiências por meio da imaginação.

O brincar possui grande importância no desenvolvimento infantil, permitindo experimentar papéis sociais, elaborar vivências e construir narrativas.

Quando uma criança conversa com uma boneca, não significa necessariamente que esteja confundindo fantasia com realidade. Muitas vezes, ela sabe que se trata de um brinquedo, mas utiliza a imaginação para criar uma experiência significativa.

Na vida adulta, essa capacidade de atribuir sentidos simbólicos continua presente, embora geralmente apareça de outras maneiras.

Podemos dar apelidos ao carro, conversar com uma planta ou guardar cuidadosamente um objeto associado a alguém que amamos.

Essas atitudes mostram que a imaginação não desaparece quando crescemos. Ela continua participando da maneira como percebemos, lembramos e interpretamos o mundo.

Naturalmente, o significado dessas experiências varia. Algumas pessoas conversam com objetos por diversão, outras por hábito e outras porque encontram nesses gestos uma forma particular de expressar sentimentos.

Não existe uma explicação única para todos esses comportamentos.

Conversar com objetos pode despertar sentimentos de gratidão?

Volto aqui à minha experiência com o carro.

Quando agradeço por mais uma viagem ou por ter conseguido enfrentar determinada situação, sinto algo muito bom. Não se trata apenas de falar algumas palavras. É um momento em que reconheço o quanto avancei desde os primeiros dias em que dirigir parecia uma tarefa assustadora.

Aquele gesto me permite lembrar da pessoa que fui e perceber as mudanças que aconteceram ao longo dos anos.

Talvez outras pessoas encontrem sentimentos semelhantes em situações diferentes. Alguém pode agradecer à casa onde viveu momentos felizes, conversar com uma planta que cuida há muito tempo ou guardar um objeto que acompanhou determinada conquista.

A gratidão não precisa estar necessariamente dirigida a alguém capaz de responder. Em alguns casos, ela pode ser uma forma de reconhecer aquilo que uma experiência representou.

Isso não significa atribuir poderes especiais aos objetos, nem acreditar que tenham participado conscientemente dos acontecimentos.

O carro não tomou decisões por mim. Não enfrentou meus medos nem construiu minha confiança. Mas estava presente durante experiências que adquiriram enorme significado pessoal.

A diferença parece pequena, mas é importante. O objeto não precisa ser tratado como uma pessoa para fazer parte de uma lembrança afetiva.

Às vezes, nossas conversas são uma maneira de celebrar aquilo que vivemos.

E quando começamos a conversar com inteligências artificiais?

A relação com a inteligência artificial acrescenta uma dimensão diferente a essa discussão.

Ao contrário de um carro ou de uma fotografia, um sistema de inteligência artificial pode responder às nossas perguntas, desenvolver assuntos e participar de conversas que parecem bastante naturais.

Podemos pedir explicações, compartilhar pensamentos, estudar um tema, organizar um projeto ou conversar sobre acontecimentos cotidianos.

A experiência pode despertar uma sensação de proximidade justamente porque a comunicação utiliza uma das características mais importantes das relações humanas: a linguagem.

Esse fenômeno, entretanto, não começou com as ferramentas atuais.

Em 1966, o cientista da computação Joseph Weizenbaum publicou um trabalho sobre o programa ELIZA, desenvolvido para simular determinados padrões de conversação entre pessoas e computadores.

Uma das formas de interação do programa utilizava perguntas e reformulações de frases, criando a aparência de um diálogo semelhante, em alguns aspectos superficiais, a determinadas conversas terapêuticas.

Embora o funcionamento fosse limitado, a experiência demonstrou como respostas produzidas por um computador poderiam despertar a impressão de compreensão.

A tendência de atribuir capacidades humanas de entendimento a sistemas computacionais passou a ser conhecida como efeito ELIZA.

Décadas depois, os sistemas de inteligência artificial se tornaram muito mais sofisticados. Hoje conseguem produzir textos extensos, acompanhar o contexto de uma conversa e responder de maneiras que se aproximam de diferentes estilos de comunicação humana.

Ainda assim, é importante diferenciar a experiência emocional de quem utiliza a tecnologia das capacidades efetivas do sistema.

Uma resposta acolhedora não deve ser confundida automaticamente com sentimentos, consciência ou compreensão humana por parte da inteligência artificial.

Por outro lado, a experiência de quem conversa pode despertar emoções verdadeiras. Uma pessoa pode sentir satisfação ao aprender alguma coisa, alívio ao organizar pensamentos ou entusiasmo ao desenvolver uma ideia.

O sentimento humano experimentado durante a interação não deixa de existir apenas porque a conversa aconteceu com uma tecnologia.

Mulher sorrindo enquanto utiliza um notebook no sofá, acompanhada de seu cachorro, em um ambiente aconchegante.
Imagem: Arquivo pessoal Angela Santos

Por que às vezes é mais fácil conversar com uma inteligência artificial do que com outra pessoa?

Existem momentos em que precisamos falar, mas não sabemos exatamente com quem conversar.

Algumas perguntas parecem simples demais para procurar alguém. Outras envolvem assuntos que ainda estamos tentando compreender. Também existem situações nas quais desejamos organizar uma ideia antes de compartilhá-la com familiares, amigos ou profissionais.

Uma inteligência artificial pode oferecer uma experiência prática nesse sentido. Está disponível em diferentes horários, permite reformular perguntas e consegue acompanhar diversos assuntos em uma mesma conversa.

Talvez essa facilidade explique parte do interesse crescente por essas ferramentas.

Não é necessário marcar um encontro para perguntar o significado de uma palavra, pesquisar um conceito ou desenvolver uma reflexão sobre algo que aconteceu durante o dia.

Entretanto, quando o assunto envolve sentimentos e experiências pessoais, a situação exige uma compreensão mais cuidadosa.

Em 2025, os pesquisadores Dunigan Folk, Steven Heine e Elizabeth Dunn publicaram um estudo na revista Scientific Reports investigando como diferenças individuais na tendência ao antropomorfismo se relacionam com a sensação de conexão social durante conversas com inteligência artificial.

Os resultados sugerem que as pessoas podem reagir de maneiras bastante diferentes à mesma tecnologia. Para algumas, a experiência pode despertar maior sensação de conexão. Para outras, o fato de estarem conversando com um sistema artificial pode limitar essa percepção.

Isso mostra que não existe uma resposta universal sobre como as pessoas vivenciam essas interações.

Também é importante reconhecer os limites da ferramenta. Sistemas de inteligência artificial podem apresentar informações incorretas, interpretar inadequadamente uma situação e não oferecer a reciprocidade emocional própria das relações humanas. Questões de privacidade também merecem atenção quando compartilhamos informações pessoais.

Utilizar a tecnologia para estudar, escrever ou refletir pode ser muito útil. O cuidado está em compreender que essa experiência possui características diferentes de uma relação entre pessoas.

Quando o vínculo com objetos ou tecnologias merece atenção?

Conversar com objetos, demonstrar carinho por determinadas coisas ou utilizar frequentemente uma inteligência artificial não constitui, por si só, um sinal de problema psicológico.

O significado depende do contexto, da experiência individual e das consequências que aquele comportamento produz.

Alguém pode conversar com seu carro porque isso desperta gratidão. Outra pessoa pode guardar lembranças familiares porque deseja preservar uma parte da própria história. Também existem pessoas que utilizam ferramentas digitais para aprender, trabalhar ou organizar pensamentos.

Essas experiências podem fazer parte de uma rotina saudável, sem impedir a construção de relações humanas.

A situação merece maior atenção quando determinado comportamento passa a provocar sofrimento, comprometer responsabilidades ou prejudicar de maneira significativa a convivência e os vínculos que a pessoa deseja manter.

Mesmo nesses casos, não seria adequado tirar conclusões apenas pela observação de um hábito isolado.

A relação com objetos e tecnologias precisa ser compreendida dentro da realidade de cada pessoa, considerando suas necessidades, experiências e circunstâncias.

Talvez uma das atitudes mais importantes seja abandonar a ideia de que existe uma única maneira correta de expressar afeto, gratidão ou apego às próprias lembranças.

Nem todas as relações significativas acontecem da mesma forma, e nem todo comportamento incomum representa algo preocupante.

O que nossa relação com os objetos revela sobre nós?

Depois de conhecer o significado do antropomorfismo, comecei a perceber quantas situações cotidianas poderiam ser compreendidas a partir desse fenômeno.

Entretanto, quanto mais penso no assunto, mais percebo que existe uma questão ainda maior.

Por que determinados objetos se tornam tão importantes para nós, mesmo quando sabemos que são apenas objetos?

A resposta pode estar na capacidade humana de transformar experiências em significados.

Uma fotografia pode despertar saudade. Um perfume pode nos lembrar de alguém. Uma música pode nos transportar para determinada fase da vida. Um objeto aparentemente comum pode representar uma conquista que exigiu anos de esforço.

Com o meu carro acontece algo semelhante.

Ele representa a mulher que teve medo de dirigir, mas decidiu continuar tentando. Lembra as primeiras viagens, as situações difíceis e as pequenas vitórias que, somadas, transformaram minha relação com o volante.

Talvez, para outra pessoa, ele seja apenas um automóvel. Para mim, faz parte de uma história que conheço profundamente.

Por isso, quando converso com ele, não estou necessariamente esperando uma resposta. Estou reconhecendo tudo aquilo que vivemos e, principalmente, tudo aquilo que consegui superar.

Com as inteligências artificiais, encontramos outra forma de interação. A tecnologia responde, organiza informações e participa de diálogos, despertando reflexões sobre o significado da comunicação e da conexão humana.

São experiências diferentes, mas que revelam algo em comum. Nossa capacidade de estabelecer relações simbólicas com aquilo que participa da nossa vida.

Conclusão

O antropomorfismo é um fenômeno fascinante porque mostra como utilizamos características humanas para interpretar o mundo ao nosso redor.

Entretanto, conversar com objetos não se resume a atribuir sentimentos a coisas que não são pessoas. Em muitos casos, esses gestos também envolvem memória, gratidão, imaginação e vínculos construídos ao longo do tempo.

A psicologia oferece explicações sobre nossa tendência ao antropomorfismo. A psicanálise contribui com reflexões sobre os significados subjetivos dos objetos. Já os estudos sobre inteligência artificial ajudam a compreender novas formas de interação que passaram a fazer parte do cotidiano.

Essas perspectivas não precisam competir entre si. Cada uma ilumina uma dimensão diferente da experiência humana.

Continuarei conversando com meu carro, agradecendo e comemorando nossas pequenas vitórias. Não porque ele possa compreender minha história, mas porque sua presença ficou associada a momentos importantes da minha vida.

Quando digo “Nós vencemos mais uma”, também estou lembrando a mim mesma de tudo aquilo que fui capaz de enfrentar.

Talvez, às vezes, conversemos com os objetos porque eles estiveram presentes em momentos da nossa vida que nenhuma outra pessoa testemunhou.

E você? Existe algum objeto que guarda uma parte especial da sua história?

Perguntas frequentes

O que é antropomorfismo?

Antropomorfismo é a tendência de atribuir características humanas, como sentimentos, intenções ou comportamentos, a entidades não humanas. Esse fenômeno pode aparecer na linguagem cotidiana, na imaginação, nas brincadeiras e na maneira como interagimos com tecnologias.

É normal conversar com objetos?

Conversar com objetos pode ser uma forma de expressar gratidão, afeto, humor ou lembranças pessoais. Esse comportamento, isoladamente, não indica a existência de um problema psicológico. Seu significado depende do contexto e da experiência individual.

Por que sentimos tanto carinho por determinados objetos?

Alguns objetos ficam associados a pessoas, conquistas e acontecimentos importantes. Por isso, podem adquirir um valor emocional maior do que seu valor material, funcionando como referências simbólicas da nossa história.

O que a psicanálise diz sobre os vínculos com objetos?

A psicanálise investiga diferentes formas de relação afetiva e simbólica. Donald Winnicott, por exemplo, estudou os objetos transicionais no desenvolvimento infantil. Entretanto, nem todo vínculo afetivo com um objeto na vida adulta corresponde a esse conceito.

Por que conversar com inteligência artificial pode parecer uma conversa humana?

Porque sistemas de inteligência artificial utilizam linguagem e padrões de resposta semelhantes aos encontrados em diálogos humanos. Isso pode favorecer a impressão de compreensão e proximidade, fenômeno relacionado ao efeito ELIZA e aos estudos sobre antropomorfismo.

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Referências

EPLEY, Nicholas; WAYTZ, Adam; CACIOPPO, John T. (2007). “On seeing human: A three-factor theory of anthropomorphism”. Psychological Review, 114(4), 864–886.

BELK, Russell W. (1988). “Possessions and the Extended Self”. Journal of Consumer Research, 15(2), 139–168.

WINNICOTT, Donald W. (1953). “Transitional objects and transitional phenomena: A study of the first not-me possession”. International Journal of Psycho-Analysis, 34, 89–97.

WEIZENBAUM, Joseph. (1966). “ELIZA: A computer program for the study of natural language communication between man and machine”. Communications of the ACM, 9(1), 36–45.

FOLK, Dunigan; HEINE, Steven J.; DUNN, Elizabeth. (2025). “Individual differences in anthropomorphism help explain social connection to AI companions”. Scientific Reports, 15, artigo 36548.

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